Jan 26, 2022 Last Updated 10:26 PM, Jan 25, 2022

Brasile: O risco da Missão numa terra sem lei

Categoria: I Nostri Dicono
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Entrevista com Dom Erwin Kräutler
Bispo da Prelazia do Xingu, no Pará, denuncia luta pela terra e violência no campo e é ameaçado de morte.

{mosimage}O latifúndio, o poder e a impunidade são algumas das causas que levam o estado do Pará a apresentar o maior índice de assassinatos relacionados com a disputa de terras no Brasil. A tensão tem como protagonistas fazendeiros vindos do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso que defendem o plantio de soja, e o grupo formado por moradores antigos da região e ambientalistas.
Em Santarém, localizada no encontro dos rios Amazonas e Tapajós, entre 2004 e 2005, imagens de satélite revelaram que 1,2 milhão de hectares de terra viraram plantações de soja. Toda a produção é consumida na Europa.

De 1.237 mortes ligadas à violência no campo no Brasil, entre 1985 e 2001, conforme a Comissão Pastoral da Terra, 40% aconteceram no Pará. Existe uma lista de 120 pessoas marcadas para morrer.Natural da Áustria, há 41 anos vivendo no Xingu, o bispo da Prelazia, Dom Erwin Kräutler, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Pará, padre José Boeing e o padre Edilberto Sena, detentor do prêmio de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), secção Pará, também são alvos de ameaças. A grande mídia guarda silêncio sobre elas. Nem mesmo a caravana do Jornal Nacional que passou pela região noticiou o fato ao país.

Dom Erwin, por que o senhor e seus colaboradores estão sendo ameaçados de morte?

Colocar-se ao lado dos menos favorecidos, defender os legítimos direitos indígenas e dos povos ribeirinhos, dos pequenos agricultores e suas famílias, denunciar a grilagem e invasão de terras e a pilhagem, o saque inescrupuloso das riquezas naturais da Amazônia, tudo isso mexe com os interesses e ambições de fazendeiros, sojeiros, mineradores, madeireiros e barrageiros e provoca reações irracionais por parte dos que querem apoderar-se de vastas regiões e derrubar a mata virgem. Estes homens, ávidos por lucro imediato e loucos por riquezas, não se deixam convencer de que sua ação destruidora causará danos para esta e para as futuras gerações. A situação se torna ainda pior porque eles contam com o apoio de políticos, que repetem há décadas slogans, tais como “tanta terra para poucos índios!” ou “só o agronegócio em grande escala dá lucro!” Eles só sabem responder às nossas preocupações com difamações e ameaças que infelizmente não são apenas intimidações genéricas. Elas muitas vezes se concretizam em brutais assassinatos. Nós não buscamos o conflito. Nossa posição a favor dos menos favorecidos e do meio ambiente já nos torna, aos olhos deles, inimigos do “desenvolvimento”.

Quais as principais linhas de ação pastoral da Prelazia do Xingu na região?

A Prelazia do Xingu procurou sempre estar em sintonia com toda a Igreja na América Latina e seguir as linhas traçadas por Medellín e Puebla depois do Concílio Vaticano II. O Encontro Interregional de Santarém, em 1972, em que os bispos da Amazônia se reuniram para aplicar as decisões de Medellín ao chão concreto dos planos pastorais de toda a Amazônia, teve enorme influência também na Prelazia do Xingu. A maior circunscrição eclesiástica do Brasil com 365 mil quilômetros quadrados e meio milhão de habitantes se desdobra hoje em 750 comunidades espalhadas nas cidades e vilas, ao longo dos rios e igarapés e das estradas que surgiram desde o início da década de 70, mormente a Rodovia Transamazônica (BR 230). De cinco em cinco anos representantes de cada comunidade do Xingu se reúnem numa grande assembléia para avaliar a caminhada e planejar a ação evangelizadora. A última realizou-se em novembro de 2004 e contou com a presença de 794 pessoas. Para o quinquênio 2004 – 2009 a Prelazia escolheu como objetivo: “A Igreja, Povo de Deus no Xingu, para ser fiel à missão profética e à prática libertadora de Jesus, compromete-se com a evangelização inculturada, à luz da opção pelos excluídos, enfrentando os desafios da realidade, organizando as comunidades, através do anúncio, do serviço, do diálogo e do testemunho, participando da construção de uma sociedade justa e solidária a caminho do Reino de Deus”. As propostas de ação pastoral decorrentes do objetivo geral visam a formação de lideranças, dando especial destaque à Bíblia e a uma mística que sustenta nossa ação evangelizadora numa realidade complexa e conflitiva, uma espiritualidade que une fé e vida, ação e oração-contemplação e desperta o ardor missionário.

O governo e o Poder Judiciário têm alguma parcela de culpa pela situação de conflito?

Aí está a questão principal. Não deveria ser missão de bispo, padre, religiosa ou religioso defender o direito à terra e à simples sobrevivência das pessoas. Isso é assunto do Estado, da Justiça. Infelizmente na linha de frente da Amazônia, o Estado está praticamente ausente, os seus organismos inoperantes ou então muitas vezes coniventes com a ilegalidade dos invasores. A Justiça é vagarosa, negligente e os verdadeiros culpados por morte e agressão à integridade física e aos direitos humanos se evadem ou “se arranjam” com os órgãos judiciários. Se algum mandante de assassinato for julgado e condenado, em pouco tempo estará “aguardando em liberdade” o recurso, o que equivale a dizer que o processo já está arquivado. Se o Estado e a Justiça estão ausentes, quem ainda vai defender este povo? Em nome de Deus a Igreja assume a missão profética como outrora o fez Isaías, Jeremias, Ezequiel, Amós e tantos outros.

Como bispo missionário, onde o senhor encontra forças para continuar o seu trabalho?

Primeiro preciso dizer que o povo não se coloca contra o bispo, mas, o defende contra as difamações e ameaças. É um pequeno grupo que se levanta contra o bispo e quer manchar a ação da Igreja. Nunca me passou pela mente abandonar a minha missão por causa desses adversários do Reino. Fiz um depoimento sobre as ameaças e suas causas que intitulei de “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” (Rom 8, 31). Eis a razão porque continuo a missão até o dia que Deus quiser. Foi Ele que me enviou para o Xingu e é Ele que está comigo. Sei que não tirará as pedras do meu caminho. Mas, como já falou a Jeremias, Ele confirma sua presença no meu caminho: “Eles lutarão contra ti, mas nada poderão contra ti, porque estou contigo...” (Jr 1, 19). Tenho fé em Deus e Nossa Senhora. Mais não posso dizer.

O programa de proteção aos defensores dos Direitos Humanos estabelecido pela ONU e adotado pelo governo federal vigora no Pará?

Esse programa vigora em nosso estado. De fato, fui escoltado por mais de duas semanas por policiais militares até o dia em que eu mesmo pedi que relaxassem essa medida. É simplesmente impossível exercer a minha missão de pastor tendo dois guarda-costas 24 horas por dia ao meu lado. Chego na comunidade e o povo se apavora quando vê as armas na cintura desses homens. Já pensou, eu sentado à beira da cama de uma pobre enferma com câncer em sua fase terminal a ministrar-lhe os sacramentos enquanto o soldado monta guarda na porta? Com toda a boa vontade da Segurança Pública de proteger minha integridade física, isso não passa de um paliativo, porque os problemas que estão na raiz das ameaças continuam. O estado, através do INCRA, do IBAMA, da Polícia, da FUNAI, tem que assumir o seu papel constitucional. Se uma terra é pretendida por fazendeiros e ao mesmo tempo destinada aos PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) é necesário resolver este impasse. Assentar pobres colonos numa área grilada por fazendeiros ou invadida por madeireiros é programar o conflito armado em que morre o mais fraco, o colono. Uma vez resolvida essa situação pela Justiça, não será mais necessário preocupar-se com a segurança do bispo.

Nestes tempos difíceis, o que o senhor espera dos cristãos do Brasil?

Há tanta solidariedade e carinho por este Brasil afora! Recebi e continuo recebendo e-mails e cartas de muitas pessoas e comunidades. É confortante saber que neste exato momento uma comunidade contemplativa de Carmelitas ou Clarissas está rezando por você, dá coragem receber uma carta de solidariedade de outra comunidade religiosa que trabalha numa periferia de cidade ou na zona rural deste nosso Brasil. É animador receber um e-mail ou telefonema de um bispo irmão que afirma seu apoio. É emocionante receber uma cartinha de uma jovem, de um jovem, de uma criança, de um casal, de uma vovó que diz: “Continue firme! Deus está com o senhor. Nós estamos rezamos pelo senhor...“

No seu país de origem, como seus familiares e amigos reagem vendo sua vida em perigo?

Fui ordenado aos 25 anos de idade na Áustria, em julho de 1965, e em novembro do mesmo ano já estava no Brasil. No dia 21 de dezembro cheguei em Altamira, no Xingu. Nunca exerci meu ministério de padre ou de bispo em outra região. O Xingu é minha segunda pátria. Mesmo assim não nego minhas raízes. Sou brasileiro, xinguara, nascido na Áustria. Meus pais faleceram em 2004. Tenho irmãos e irmãs e muitos parentes e amigos, amigas. Nunca cortei os laços com a terra onde nasci e me criei. Mas sou missionário e sempre entendi essa vocação não no sentido de ser um de fora, mas de eu tornar- me em todos os sentidos membro do povo a quem fui enviado. Hoje me interessa muito mais o fato de pertencer ao povo do Xingu.

As notícias de ameaças se tornaram manchete também na Áustria e desde então, as manifestações de apoio por parte de pessoas amigas, de Igrejas locais, de paróquias, até do cardeal de Viena e do arcebispo de Salzburgo, onde cursei a universidade e em cuja catedral fui ordenado padre, não param de chegar. Mesmo sendo naturalizado brasileiro há quase trinta anos, o Ministério das Relações Exteriores e a embaixada da Áustria apelaram ao nosso governo e manifestaram sua preocupação a respeito da minha segurança. Vejo nisso uma expressão de solidariedade e carinho e sou muito agradecido a todos. Espero que o quanto antes, em nossa região, se cumpra a profecia de Isaías: “Fazei da paz a tua administradora, e da Justiça a tua autoridade suprema. Na tua terra não se tornará a falar em violência, nem em devastação e destruição nas tuas fronteiras” (Is 60, 17-18).

* Jaime Carlos Patias, imc é mestre em comunicação e diretor da revista Missões. Entrevista publicada pela Missões, edição de outubro 2006.

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