Jun 05, 2020 Last Updated 1:45 PM, Jun 4, 2020

O mundo interior

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Dois jovens europeus, interessados em fazer um trabalho de voluntariado na Amazónia, pedem a mim a indicação de locais onde possam viver essa experiência. Em dado momento um deles pergunta: “Tem que rezar muito nesses lugares?”. Eu o conhecia desde pequeno, sabia da sua riqueza interior, por isso respondi: “Nesses lugares você não encontrará muito tempo para rezar, até porque tudo ali é oração: trabalho na roça, convívio, danças, refeições, etc.”

Nos últimos anos observa-se no mundo um crescente interesse por assuntos relacionados à mística e espiritualidade. O termo espiritualidade entrou na moda. Sempre que uma cultura entra em crise ocorre uma busca de respostas no campo espiritual. Na atualidade o gatilho pode ser a crise de representatividade no campo político, religioso, na ética cotidiana, ecológica, carências que provocam falta de sentido na vida. É importante lembrar que a crise é sempre uma crise do horizonte utópico, daquela confiança básica na vida e na história sem a qual nenhum indivíduo ou sociedade pode subsistir. Todo esse vazio gera uma busca por uma nova re-ligação, por uma espiritualidade que se manifesta de diversas formas: peregrinações, prática de ioga, devoções, meditação e até engajamento em lutas por justiça social.

Mesmo com esse retorno a práticas de espiritualidade, manifestado também pelo   crescimento das igrejas ou o nascimento de novas comunidades, ainda subsiste a falta de uma experiência profunda de encontro com Deus. Parece que nós cristãos temos dificuldade ou não sabemos mergulhar mais profundamente na dimensão maior que a espiritualidade nos propõe. Vivemos uma espiritualidade superficial. É preciso rezar a vida, torná-la processo de transcendência, de superação, de integração pessoal e comunitária. Mas para se chegar a um verdadeiro encontro com Deus é preciso saber “perder tempo”, algo que está na contramão da nossa cultura atual. É preciso aprender a silenciar o corpo e a mente. Paracelso, médico do século XVI, na quinta das suas sete regras para melhor viver, dizia: “Deves recolher-te todos os dias onde ninguém possa perturbar-te, por cerca de meia hora, senta-te o mais comodamente possível com os olhos meio fechados e não pense em nada. Isso fortifica energeticamente o cérebro e o espírito e te colocará em contato com as boas influências”.

O modelo de sociedade fundada no consumismo destrói por dentro jovens e adultos, instituições e comunidades, inclusive religiosas. Nesse cenário cada pessoa é um pobre ausente de si mesmo. Pensa que tem tudo, mas está vazio e sequer percebe que a sua vida é sorrateiramente controlada. Como dizia Pier Paolo Pasolini, consagrado diretor de cinema, as exterioridades vão esvaziar a humanidade. Através do espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências e das experiências sensoriais. O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade, repleta de sintonia e profundidade.

Talvez uma das consequências da adoção da cultura consumista, materialista, dualista, seja exatamente viver o que a teologia chama de “a experiência da morte de Deus”. Deus não fala mais. É agora apenas mais uma mercadoria disponível no mercado, embalada sob a forma de um ídolo que não satisfaz o desejo infinito do ser humano.

Na era do vazio e da incerteza nem sequer sabemos bem o que queremos. A interioridade esvaziada busca novas necessidades, que logo são substituídas por outras ilusões.  O jesuíta Rupnick, autor de renome na arte sacra, afirmava que aquilo que o comunismo materialista quis fazer com a igreja e não conseguiu, isto é, transformá-la em apenas uma organização social, a matriz hiper-capitalista está conseguindo, impregnando seus seguidores e fiéis da lógica capitalista. Ocorre que a vida espiritual não se coloca na esfera da necessidade, como o trabalhar, estudar, dormir, mas sim na esfera da gratuidade e disponibilidade. Por isso, hoje se faz necessária uma interioridade profunda, meditada, refletida, um espaço onde possamos ouvir e falar com a nossa consciência, ou com alguém que nos ouça e nos entenda, que nos ajude e nos encoraje, a fim de que possamos depois assumir adequadamente os desafios da missão no mundo de hoje.

Espiritualidade e a qualidade de vida

A palavra espiritualidade é usada amplamente e muitas vezes é banalizada, havendo desde a espiritualidade do golfe até a espiritualidade de uma nação. Quanto à espiritualidade cristã, podemos falar das devoções, da espiritualidade carmelita, franciscana, romarias, exercícios espirituais allamanianos, meditações, etc. O território é vasto e fértil. A espiritualidade tem a ver com a nossa interioridade. Podemos defini-la como vida interior de uma pessoa. É uma escolha e um modo de vivenciar na prática as convicções profundas da vida.

Viver a espiritualidade é um desejo de encontro com Deus em todos os momentos. Hoje, no entanto, qualquer lugar torna-se desconfortável para rezar, porque o nosso interior anda demasiadamente agitado. Sobre isso Romano Guardini definiu:

“O Homem não reza de boa vontade. É fácil que ele experimente, ao rezar, um sentido de aborrecimento, um embaraço, uma repugnância, inclusive uma hostilidade. Qualquer outra coisa parece-lhe mais atraente e mais importante... Se o homem quer orar dever apartar-se de tudo e fazer-se presente ante Deus. Todo aquele que possui sensibilidade para as coisas grandes e elevadas, antes de acercar-se a elas se recolhe dentro de si, distanciando-se da dispersão exterior”.

A vida espiritual consiste no eterno despertar da alma para o que é essencial. Para Thomas Merton a vida espiritual é, em primeiro lugar, “uma questão de estar desperto”. Mas, para que a alma desperte, ela precisa daquela pausa necessária, sem a qual não é possível encontrar o verdadeiro equilíbrio interior. Sem pausa, sequer somos capazes de reconhecer a nossa sede de Deus. A solidão interior é a forma que a alma encontra para despertar da frieza do mundo e ressuscitar para realidades mais elevadas. “A vida solitária, silenciosa, dissipa a cortina de fumaça das palavras que o homem insere entre sua mente e as coisas. Na solidão, permanecemos frente a frente com o ser nu das coisas”, dizia Merton.

A vida interior é um caminho seguro para os tempos de hoje, onde o tempo foge veloz e devemos sempre “viver dentro”, para não ignorar ninguém fora. Ou, mais ainda, para encontrar em cada próximo o mesmo Deus que vive em nós. Ao perguntar-se “que tipo de espiritualidade seria própria de nosso tempo”, o filósofo e teólogo espanhol Raimon Panikkar sinaliza para a descoberta de uma espiritualidade integral, ou seja, uma experiência capaz de integrar o ser humano em sua totalidade.

Podemos dizer que a vida interior é uma exigência, um apelo. Para a Bíblia, a vida interior não pode se opor à vida exterior, mas exige coerência e comunhão.  Ela é o cumprimento de uma ordem para realizar a própria singularidade, que é a primeira e fundamental vocação do homem: realizar aquilo que ninguém pode realizar por mim.

Na busca de uma espiritualidade cristã são mais importantes as boas perguntas do que muitas respostas. Os questionamentos podem nos guiar ao conhecimento de nós mesmos. E autoconhecimento na perspectiva cristã significa reconhecer e nomear os enigmas que nos habitam. No campo da psicologia, uma das abordagens destaca a importância da meditação criativa, ligada ao método chamado de psicossíntese, através da qual se chega ao autoconhecimento. Dica: Faça uma pausa de pelo menos trinta minutos do seu dia, pare, relaxe, respire fundo e se observe internamente. Perceba seus sentimentos, pensamentos e percepções. Perceba seu fluxo mental, seu fluxo de consciência.

A espiritualidade somente é saudável quando é vivenciada com equilíbrio. Tudo o que foge ao equilíbrio torna-se espiritual e psicologicamente perigoso. O trabalho, o esporte, o lazer, o descanso, a participação social são importantes para o nosso crescimento humano, social, mental e espiritual.  E em todos estes ambientes a espiritualidade deverá estar presente. A experiência de Deus que trazemos gravada em nossa alma não fica isolada das outras experiências da vida, mas as potencializa. Quem separa a vida social da experiência espiritual que traz em si, perde-se nos territórios da sua própria alma. O equilíbrio entre a vida e a fé não são motivos para nos afastar das diferentes realidades que nos interpelam. Uma vida espiritual madura, sadia e equilibrada abre-nos um caminho de paz que é trilhado a partir das experiências de fé que estão sendo cultivadas em nosso próprio coração.

Quem descobriu na espiritualidade um jeito maduro de ser mais humano e divino, encontrou em si mesmo o segredo do amor de Deus que em nós equilibra todos as esferas da vida. Numa espiritualidade encarnada e profética há lucidez para captar as raízes dos avanços e postulados da modernidade, bem como a valorização de seus aspetos positivos. Assim, ser profético não se trata de julgar moralmente a modernidade, mas de mostrar que se deve cultivar o prazer dos sentidos em consonância com o sentido maior da verdade, da justiça social, da proteção ecológica, da beleza, do amor e da vida humana.

Twitter @isaack89913319

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* Pe. Isaack Gaitani Mdindile é Missionário da Consolata originário da Tanzânia. Ordenado sacerdote o ano passado, neste momento é membro da região do Brasil e faz atividade missionaria entre os Povos Indígenas do Estado do Roraima, na Amazónia brasileira (ndr.). 

Ultima modifica il Domenica, 29 Marzo 2020 20:42
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