Jun 28, 2017 Last Updated 4:46 PM, Jun 28, 2017

Quaresma Tempo de Graça - de Conversão Missionária

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QUARESMA! Não é de se estranhar que nos ocorra um pensamento rasteiro: “é mais uma quaresma vindo por ai...!” Dando impressão de um costume a cumprir e fechar o círculo e daí por diante...! Talvez seja justamente por este tipo de simplificação do conceito quaresmal, que faça pertinente uma alusão centralizada na CONVERSÃO, como temática desta publicação. Fascinante ainda, quando toma a conotação “CONVERSÃO MISSIONÁRIA”.

Saberão e poderão fundamentar na tradição bíblica e eclesial que o chamado missionário sempre obedeceu à transmissão generosa, cuja fonte é a graça de Deus, assim encerrando uma gratuíta recepção que impele a um gratuíto compartilhar (Mt 10, 8b; 1 Cor 11, 23; 15, 3). E mais! este chamado sempre foi dirigido por Deus primeiramente individualizado ao enviado de modo personalizado, e assim evolui este apelo adquirindo caráter comunitário. (cfr. Profeta Jonas)

Lembraram que desde os tempos dos profetas no antigo testamento, a Missão por Deus dada aos indivíduos; entre outras continha uma forte dose do convite à conversão, um chamado à mudança do jeito, da forma e o modo de ser e se relacionar entre si e com as outras criaturas ou bens que na verdade serviriam apenas para facilitar o bem estar consciente nesta vida temporária.

Destacamos os grandes profetas: Isaías bateu na tecla da indiferença religiosa e exagerada confiança nas riquezas e bens materiais que devorava o povo do seu tempo. Ezequiel por sua vez centralizou a sua missão nas profanações do culto sagrado (no santuário), a idolatria e infidelidade a Deus, ou seja, aqueles pecados que ofendem diretamente a Santidade e glória de Deus. Jeremias procurou despertar o amor por Deus, aquele que fala para o coração da pessoa, aquele que dialoga com ela, e consequentemente com seu povo, ou seja, Deus que se comunica ao coração do ser humano. E Daniel veio e concentrou-se na animação da fidelidade ao Deus com quem fizeram pacto (Aliança) e condenou o fascínio pelo mundo pagão e atraente por tantas coisas que nos oferece. Olhem que o nosso tempo não é diferente, nem alheio a estes motivos de gritos proféticos.

O João batista, o homem descrito por Jesus como o maior de todos os nascidos de mulher, também centrou a sua missão, pregação e profecia na conversão que passa pelo arrependimento (Mc 1,4). O próprio Jesus o Cristo, ao iniciar o seu ministério terrestre fez da conversão temática não apenas central senão inaugural, convidando ao arrependimento, ou seja, à conversão (Mc 1, 15).

Ainda nos nossos tempos, sabemos que a Mãe do salvador passa por Estrela da evangelização, e incansavelmente convida à conversão da humanidade. Basta revisitar mensagens das grandes e legitimamente comprovadas aparições dela... Nelas percebem-se que, não poucas vezes ela profere palavras de convite à conversão através dos seus videntes (cfr. La Sallete, Lourdes, Fatima, kibeho, etc.)

Vejam bem que CONVERSÃO é conteúdo central e denso da Missão Salvifica e evangelizadora. Ela caracteriza o chamado à mudança primeiramente dos indivíduos e do estado espiritual, jeito ou modalidade de ser ou viver, a um outro sempre melhor. Em termos cristãos e espiritual, conversão é resposta de quem ouviu o Senhor (com admiração), creu n´Ele (pela ação do Espírito Santo) e decidiu ser seu amigo e segui-lo, mudando sua forma de pensar, agir e viver, mesmo consciente das dificuldades e desafios que isto possa apresentar. É morrer para o pecado (mal) e viver para Deus (Rom 6,10). É lançar-se a uma vida nova ou melhor e significativa para meu ser cristão. É despojar-se do homem velho e se vestir do homem novo (Ef 4, 22-24).

Portanto, justamente isso é o que nos impulsiona a reservar e levar a sério os quarenta dias, para se avaliar e, interiorizar o caminhar da gente, pautando-o na conversão, e perguntar-se, entre outras: “se antes não me preocupei com o meu ser cristão-missionário; da minha experiência quaresmal, então nesta quero olhar para dentro, revisar a minha visão cristã- missionária; e o meu ser discípulo-missionário. Como que está ou estou mesmo?”. 

Pois, toda mudança, transformação, conversão ou atitude missionária vem e começa de dentro para fora; dos indivíduos para o grupo; da casa/família para comunidade/sociedade. É esse movimento que depois faz o povo conhecido por sua vitalidade missionária, etc; e daí brota como espírito de uma Igreja local.

Não é de se estranhar então, quando Jesus interpelou o ser humano, ao declarar que se contamina antes por aquilo que é de dentro de si e não com aquilo que está ou vem de fora... (cfr. Mt 15, 11). É preciso cuidar do interior da gente e cultivar bons sentimentos de generosidade cristã... eis aí a importância e relevância do tempo quaresmal para se preocupar com aquilo que me move por dentro, para o bem da Igreja e da sua Missão. Enfim, o trabalho individual, o exame de consciência pessoal, é o que se traduz numa consciência comunitária, numa conversão coletiva, numa Igreja-família, ou seja, numa sociedade renovada, convertida e solidária.

Quaresma é tempo de conversão no sentido muito mais amplo do que talvez imaginaríamos, é um período de olhar para dentro, que logo há de contagiar para fora com os frutos de uma resolução e com cheiro de melhoria, de desejos para horizontes maiores e tempos diferentes na caminhada e vivência cristã.

Quer dizer as mudanças espirituais, as transformações humanas e passos pequenos feitos apartir de uma resolução de cada indivíduo, são responsáveis pela mudança, transformação e avanços coletivos de uma sociedade, de um povo, de uma Igreja. É momento de se refletir sobre a responsabilidade que cada um de nós tem de contribuir e contagiar promovendo para algo bom. De implicar no processo evolutivo da sociedade, do nosso povo, de nossa Igreja; é envolvimento pessoal orando e agindo (Tg 2, 14-25).

Aquilo não tem outro nome, senão uma “conversão missionária”, não de estruturas, não de mudanças geográficas, mas sim de atitudes, do modo de pensar e ser, cujos início depende do estado da minha consciência em relação ao meu ambiente, a minha casa/família, a minha Igreja. Lá onde procuro experimentar o Deus em quem me confio, espero e creio; o Deus da vida que vale seguir e partilhar com outrem; o Deus amor e misericórdia; Ele que é a razão do meu ser. Isso é evangelizar com a vida desde onde estou, onde vivo e convivo. Talvez seja isso que nos falte hoje em dia; o modo como evangelizamos, ou seja, testemunhos autênticos e convincentes...

Percebe-se então, o quanto é importante a consciência própria do ser cristão, a necessidade de um ser consciente das suas escolhas, opções e decisões. Olha quanto implicamos como indivíduos no presente e futuro do nosso povo e Igreja como todo. A final, conversão é algo que acontece dentro da gente e se faz perceber no jeito, ou modo de ser, nas convicções e tendências, nas relações. Essa é a essência do nosso ser cristão-missionário. É um ser que repercute no ambiente onde vivo, na pessoa com quem vivo. Quer dizer todos os dias e, o tempo inteiro o verdadeiro cristão é aquele(a) que se importa com a sua fragilidade humana e, mantêm acesa a chama em busca de se superar, focado com o desejo de avançar no caminho da perfeição e da santidade (Mt 5, 48).

Na medida que fazemos este esforço, garantimos uma sociedade e Igreja de homens e mulheres em constante busca da conversão, renovação, e superação dos vícios, atitudes e tendências que amargam e entristecem a vida humana, que atrapalham a caminhada cristã, e ameaçam o alcance das coisas do alto (Col 3, 2).

Então, sintetizamos que o chamado à CONVERSÃO MISSIONÁRIA faz parte constitutivo do ministério da Igreja, povo de Deus, que, sob o impulso do Espírito Santo, atualiza a práxis evangelizadora de Jesus, voltada para auto-edificação dela mesma (Igreja) e para a expansão do Reino de Deus no mundo.

Portanto, o verdadeiro sentido da conversão missionária e na sua profundidade, há de nascer no coração missionário do indivíduo e depois se refletir na vida da comunidade ou Igreja à qual pertence, pelo jeito de ser e, as atitudes missionárias concretas daquela gente ou Igreja. Claro que pela graça de Deus e resposta livre do ser humano...!

No Novo Testamento temos exemplo clássico de conversão e representação de experiências que contagiou por ser elas vividas, de modo profundamente individual e posteriormente provocou respostas afirmativas dos convertidos. Levaram a uma disponibilidade missionária do ser humano e união definitiva com Cristo (At 9,3-19; 22,6-16; 26,12-18).

É preciso que a vida do cristão esteja em constante processo de conversão, pela escuta da Palavra e a recepção dos Sacramentos. São dois aspectos que têm um papel insubstituível no caminho rumo à santidade. Faz-se urgente, atual e pertinente o despertar na ótica dessa conversão missionária. Que cada um assume como individuo o chamado a essa conversão; promova uma conscientização missionária, e abrace a causa missionária, como dever cristão.

Não teria melhor forma de concluir minha experiência de missão tão gratificante nestas terras amazonenses, que fazer e repetir esse apelo que remete a toda a tradição bíblica e eclesial. O chamado à conversão missionária não é uma questão individual ou voltada para si, senão algo que deve nascer da experiência individualizada de fé e se dar numa generosidade que dá frutos no partilhar desde a nossa pobreza, as riquezas espirituais e materiais, dos dons e carismas de tantos batizados e batizadas que fazem parte da Igreja do Brasil e no caso da Igreja de Manaus.

Sintamos inquietados e tocados no coração pela pergunta: o que há de mudar ou melhorar em mim e nossa Igreja nesta e depois dessa quaresma? que seja para o bem da Missão Evangelizadora e da Igreja de Cristo. Para isso, a Igreja sabiamente nos oferece e convida todo cristão, a se beneficiar do sacramento da Confissão (reconciliação) com maior consciência, disposição, arrependimento e frequência neste tempo, e assim garantir a saúde espiritual e voltar ao Amor e Misericórdia. Para isso, os atos de caridade, solidariedade e generosidade, como é a esmola, etc; adquirem maior sentido e significado na vida cristã neste período, para valorizarmos a partilha, fraternidade e comunhão cristã desde a nossa pobreza. Para isso, o jejum consiste um gesto não só mortificador e purificador, senão antes de tudo de penitência para o bem espiritual da humanidade sofrida pelo mundo inteiro!

Boa quaresma para todos nós e graças a Deus que nos permitiu a convivência e missão no meio dos povos da Amazônia. Grato à Igreja de Manaus; no meu coração vos guardo para sempre. Amém!

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